Os Natais da minha infância

Os Natais da minha infância

Os Natais da minha infância

             Torna-se difícil me lembrar das imagens e das vivências de uma criança e manter apenas o aspecto dedutivo nas imagens lembradas, sem que haja interferência indutiva e analítica do adulto. No entanto o Natal sempre significou festa, onde a árvore verde sempre foi mais importante do que qualquer outro enfoque. Jung explicou isso em termos psicanalíticos.

Nascido aos 09 de março de 1929 aos 15 minutos da manhã, conforme informação, apenas consigo lembrar alguns flashs da primeira infância, confirmados por minha mãe.

             Seria agosto de 1929, morávamos no centro da cidade, Rua das Flores. A casa era simples, havia passadeira de linóleo no assoalho da sala e no quarto. Portas e janelas de madeira compacta pintadas de cinza chumbo. Acredito que tia Cecília e tio Manoel Gama moravam conosco por algum tempo, antes de ir para a Bahia. Lembro-me do quintal que teria 4x4m e um ralo de ferro no centro. Perto do ralo uma boneca de pano sem cabeça. Soube que tia Augusta trouxe da Europa e me deu quando nasci. Eu estava sempre no colo de uma mocinha, a Angelina. Ela tinha brincos e eu puxava apesar das reclamações. Ela sentava-se nos degraus que davam para a cozinha. Lembro-me de minha mãe fazendo a comida perto da porta e do cheiro e das cenouras raladas. Lembro-me da pia da cozinha sendo usada por ela.

             Mais tarde, seria perto do Natal, eu já andava segurando nas cadeiras da sala. Havia uma cristaleira. Minha tia, de pé, falava comigo, algo como: – “que criança educada! ” Eu havia dito: – “licença” antes de passar. Havia outra criança que chorava. Deduzo que era a Cicinha. Davam-me banhos em uma banheirinha de folha de flandres. Fiz cocô na água e expeli uma fita azul. Eles riram muito, era a fita da chupeta, que eu engolira. Puseram a fita sobre a tampa do caldeirão em que estava a água quente do banho. Estavam o Oswaldo e a Lucinda. Oswaldo morava conosco e ele devia ter 14 anos. Do Natal me lembro do cheiro de frango assado, da papinha com cenoura e uma árvore com enfeites.

             Tenho a impressão de que seria o ano de 1930 ou 31 quando mudamos. Agora morávamos em uma casa simples, na Rua Voluntários da Pátria, e o Bonde passava na porta. Minha mãe estava deitada na cama, pois me lembro de uma criança pequena que chorava no colo da tia Armanda, era a Ignezinha, minha irmã, com certeza. Doutor Tertuliano aplicava ventosas com um copo na perna de minha mãe. Meu pai usava palheta e bengala, pois caiu do bonde e machucou o joelho. Não me lembro desse Natal.

             Depois morávamos em uma travessa da Rua dos Voluntários da Pátria. A rua não tinha calçamento e os fundos da casa davam para um brejo, que nos separava do Campo de Marte. Era um sobradinho e a figura do Oswaldo era uma constante. Outra figura constante era a da Zuta, moça do vizinho que fazia pão cujo cheiro era uma delícia. Eu clamava por cima do muro e ganhava um filãozinho quase todo dia. Devia ter uns três anos. No Natal minha mãe fez sorvete de ameixa preta. A sorveteira era manual, e o cilindro onde ficava a calda mexida por uma manivela, era rodeado por gelo e sal grosso (a fim de baixar a temperatura). Lembro-me que deu muito trabalho, minha mãe e o Oswaldo se revezavam na manivela. O sorvete era de leite e coco.

             Eu ganhei um avião que tinha hélice movida por corda. Ficava pendurado embaixo da escada por um fio de linha e voava em círculos. Meu pai gostava muito de brincar com o meu avião e eu ficava olhando.

             Um domingo ele me levou passear no cemitério. Estava muito sol. Ele me deu sorvete de groselha. Fiquei muito doente com dor de garganta.

             Depois veio a revolução de 32. Um aviãozinho vermelho voava sobre o campo de Marte. De vez em quando uma bomba explodia perto dos hangares. Podia ver tudo da janela do quarto dos fundos no sobrado. O Oswaldo me disse que o Brigadeiro Eduardo Gomes jogava as bombas com as mãos e dava para ver isso. Oswaldo tinha uma espingarda pica pau e eu vi que ele amarrou um facão com fio de luz torcido que tinha capa de pano verde. Ele me disse que ia ficar guardando a casa para não entrar ladrões. Minha mãe me deu um cobertor, que eu fui puxando, e enrolou a Ignezinha em outro, e a carregou escada abaixo. Fomos de táxi para a casa da Vó Xaxa, que morava na Higienópolis. O táxi tinha capota de lona e não tinha janelas. Era uma Ramona Chevrolet 1928 talvez.

             Lembro que eu passei a detestar a Igreja, pois ela roubava o meu pai no domingo, o único dia que ele poderia ficar em casa com a gente. Lembro que ele estudava música e quando eu puxava a calça dele para que viesse brincar comigo, ele se zangava. Também tive vontade de quebrar o violino. Lembro-me bem que minha mãe reclamava de ficar sozinha com as crianças.

             Seria 1933, e mudamos para a casa da Vó Xaxa mais uma vez. O Natal desse ano foi na 1ª Igreja Batista de São Paulo. Deve ter começado as 6 horas da tarde. Lembro-me de algumas apresentações no local onde era o púlpito escamoteável. Nós crianças sentávamos em cadeirinhas verdes. Um velho gordo vestido de vermelho era o papai Noel. Lembro-me de que chorei muito porque o papai Noel bateu no Pascoalino com um bastão, dizendo que ele era malcriado, e malcomportado. Foi uma luta para me convencerem de receber um carrinho de bombeiros das mãos do homem gordo. Meu pai me explicou que o papai Noel era o Sr. Antonio Barbieri, pai do Pascoalino e que fez uma brincadeira com ele. Parei de chorar, mas me lembro de tudo até hoje.

             No ano de 1934 não houve mais o Natal na Igreja. Perguntei por que, e, o meu pai explicou que a turma da congregação queria ir para ganhar presente, e que a Igreja não tinha dinheiro. Nunca mais eu vi o Papai Noel na Igreja.

             Em 1934 mudamos para um casarão na Martim Francisco. Minha mãe estava gorda e vestida de branco. Um domingo meu pai pegou o violino e foi para a Igreja, ficamos em casa com minha mãe de cama. Lembro que os dois discutiam por causa disso. Lembro-me que tio Arthur, Ady, Alex moravam na casa de trás do casarão. Tia Lily era costureira e morava no quarto da frente onde recebia as clientes. Oswaldo estudava na Escola Profissional de Limeira, onde ficou dando aulas, e nas férias voltava para casa. O tio João vestia farda da Força Pública e andava armado com uma Beretta que era do meu pai. Um dia ele bateu o traseiro em um poste e a arma disparou, furando a calça. Havia passeatas de pessoas com gravata preta. Meu pai disse que eram os integralistas.

             No Natal ganhei uma espingarda de rolha e um auto de pedal, igual ao do Alex. No aniversário de 36 minha mãe fez um bolo com velinhas azuis. Só apareceu a tia Nonota que me deu um cofrinho de madeira que foi se enchendo de moedas de dois mil réis de prata. Fui para a Escola Maria José perto de casa. A Lily casou com o Gustavo e foi morar no Jabaquara. Meu pai estudava violino. Minha mãe fazia gelatina de mocotó e ameixa recheada com gemada. Eu engoli uma bolinha de aço e quando foi expelida fez um barulho no pinico. A casa estava sempre cheia. As filhas da Mariotte andavam por lá e minha mãe não me deixava andar sem calças e eu não entendia por que.

             Minha mãe estava gorda. Um dia ela sumiu e o Oswaldo disse que foi ao hospital. Levou uns três dias e ela voltou e estavam tristes. Ouvi dizer que o José, nosso terceiro irmão morreu. Depois foi o sarampo e o quarto escuro. Eu sarei logo, mas Ignezinha estava mal, e o tio Arthur velho, pai do “Buts”, e avô do Alex, passou horas de mãos dadas com ela e concentrado com os olhos fechados. Ele me disse que estava passando “energia vital”. Ignezinha sarou apesar do velho Arthur não ir à Igreja, e de beber chope e fumar charuto. Um homem respeitado e santo. Meu pai explicou que ele era espiritualista e ocultista. O velho era muito bom e paciente com as crianças e eu desejei ser ocultista e espiritualista, para ser como ele.

             No ano de 37 a “comunidade” se desfez e voltamos para a casa da Vovó Xaxa na Aureliano Coutinho 25. Lembro que ganhei um velocípede e gostava de correr pelo quintal, dando a volta por dentro de casa, sala, cozinha, átrio do banheiro, porta dos fundos, quintal e voltava a fazer esse trajeto. A vovó Xaxa ficou maluca com isso. Ignezinha gostava de brincar com as formigas, jogava na água da bacia e quando elas estavam afundando, salvava com uma palha de vassoura.

             Mudamos para a Rua Pinto Gonçalves e eu fui para o Jardim do Colégio Batista Brasileiro. Eu amava a dona Lourdes que me punha no colo e me dava beijinhos. Aprendi a cantar “Bem-te-vi Bem te vi, canta logo ao romper da aurora”. Gostava de brincar com o Geraldo, com o Luiz, com o Teruo Kuramoto, e no primeiro ano com a Sarita Alves Leite e com a Alice.

             Mudamos para a casa da vovó novamente. Continuava agora na Escola Maria José. Apareceu o Zepelim em uma tarde de Abril ou maio. Muita gente nas ruas olhando para cima. Nesse ano flagrei meu pai colocando presentes de Natal debaixo de minha cama! Ele era o Papai Noel! Um quilo de açúcar era 400 réis, uma soda da Antártica era 600 réis e um quilo de carne 2.000 réis. Eu fazia as compras miúdas e tinha que pedir alcatra descarregada para o açougueiro. Todo domingo a festa era macarrão e frango. Antes, uma canja onde meu avô punha azeite e vinho. Dia de semana arroz e feijão verdura e ovo. Não podia deixar resto que levava coque na cabeça.

             O Ernesto que trabalhava com o vovô sentava-se à mesa, mas não comia nada além de alface com pão, ele sempre repetia que estava de regime. Minha vó disse que à noite ele filava queijo e outras coisas para comer escondido. À tarde depois das 4 horas saía para ir passear na “prainha” da Praça do Correio. Quando nervoso, gaguejava. Comia empadas no restaurante automático da ladeira da São João.

             Mudamos para uma pensão na Av. Duque de Caxias até que se construísse a casa na Pompéia. Acho que naqueles tempos havia menos preocupação, pois eu ia e voltava sozinho de bonde da Av. Duque de Caxias até a Rua Homem de Mello, para o Colégio. Estava no segundo ano primário eu namorava a Hilse, uma lourinha filha de látvios, muito alegre e simpática. Dona Guilhermina, a nossa professora, tolerava os carinhos.

             No ano de 1937 meu avô me levava no carroção puxado por dois cavalos para “ajudar” na entrega dos batentes e das portas e janelas que ele fazia junto com o Manoel e o Ernesto. Assim um dia fomos até a Vila Pompéia entregar as portas e janelas da casa na Rua Barão do Bananal 635. Depois fomos quando a casa foi coberta de telhas e houve uma chopada. Mudamos antes do Natal de 38 e houve muita castanha, nozes e vinho. Lembro-me do tio Fonseca e do meu avô comemorando na hora do almoço. Deram-me um gole de vinho e fiquei tonto. Lembro-me de uns brinquedos de madeira, como um boliche e um canhão de madeira que atirava bolinhas.

             Era o ano de 39. Fiz dez anos na casa da Barão. Meu avô me deu um porta-níqueis com uma moeda de 2.000 réis de prata, que tenho até hoje. Brincamos muito no quintal, eu, Ignez, Maria Alice, Paulo Pinto, Delbem de Oliveira e Ivan Peter Dias. Depois bolo com velinhas.

             Um dia de inverno, e anunciou-se a guerra e a despedida do diretor do Colégio, Mister Porter. Assumiu o Silas Botelho. Começou a bagunça lentamente e o ensino decaiu. Eu deveria estar no 4º ano primário. Gostava de brincar no pátio com as balanças, argolas, barra fixa etc. O Natal foi na casa da tia Armanda, onde se reunia toda a família da minha mãe. Árvore, festa, brinquedos, muita comida, indicavam que meu tio Antonio ia muito bem. Ganhei um brinquedo idiota, uma cobra de lata que andava com corda, piscava o olho vermelho e soltava faíscas pela boca. Coisa de japonês. Preferia o meu estilingue.

             Entrou 1940.

             A dificuldade de acesso ao Colégio Batista fez com que meu pai alugasse a casa da Rua Barão e nós fomos morar na Itapicurú,722, a duas quadras do Batista. O bairro era chique apesar de o sobradinho ser pequeno. Aluguel caro não dava folgas, e eu comecei a juntar latas e tubos de pasta de dentes (estanho) para vender.

Entrei para o escotismo e fiz minha primeira viagem para a Praia Grande com os escoteiros. Tinha uma bicicleta que estava ficando pequena, mas rodava bem todas as ruas de Perdizes, Pacaembu e Pompéia com ela. Ganhei um par de patins e andava enturmado com a turma do Colégio nas ruas asfaltadas do Pacaembu.

             1941, 42, 43, 44, 45, anos de guerra. A serraria progrediu e meu pai se tornou sócio. A situação melhorou em casa, mas Natais eram: igreja, roupa, sapato novo e comida.

             Morávamos na Rua Itapicuru, 722 até 1948. Alguns registros como passar as férias em Campos do Jordão com os Escoteiros, frequentar o Centro de Educação Física do Pacaembu três vezes por semana dos 12 aos 18 anos; vender 400 quilos de Diário Oficial do Batista que estava acumulado no porão da casa do Dr. Silas; consertar ferros elétricos e bóias de caixas d’água da vizinhança.

             Aos 14 anos Trabalhei de boy durante um ano em um escritório de Contabilidade na Rua Líbero Badaró, e depois no escritório de advocacia do Dr. Raul Guimarães mais um ano. Prestei vestibular para medicina dois anos seguidos e não entrei. O Batista era muito fraco, mas foi um tempo muito divertido de jogar bola no pátio, e observar o Dr. Nelson enrolando em vez de dar aulas. Ganhei um violino que estudei dos 16 anos aos 20 anos. Não gostava, queria ser cantor, mas meu pai não deixou, devido à má fama destes e do meio.

             Mudamos para a Pompéia, depois para a Rua Guaianases e depois voltamos para a Pompéia. Dos 21 aos 25 anos fiz a FFCLUSP. Com 26 anos os Concursos de Ingresso. Com 28 eu e Talitha casamos. Aí começaram os Natais das nossas crianças… Lembro do Cavalinho que compramos para o Nato e de como ele chorou muito porque era de pau, pois queria um que fosse vivo. Agora daí para frente a estória é com vocês. Lembrem-se sempre de que a árvore é um símbolo arquetípico mais forte do que todos os discursos e cânticos.

             Papai, Dezembro de 2013.

 

Alberto Barbosa Pinto Dias, Bacharel em História Natural (todas as Disciplinas Biológicas e Geológicas), Licenciado, Especialista. USP, 1955.

Postado em : Pensando na Vida

2 Comentários


    • Ricardo
    • junho 11, 2017
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    Que bacana! Te amo , pai! Beijos!

      • Alberto Barbosa Pinto Dias
      • junho 11, 2017
      • Responder
      • Cancelar resposta

      Bom que leu o artigo e gostou. Te aconselho ler Misticismo, Ocultismo e Ciência Moderna

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