02º –  Pensando na Vida

02º – Pensando na Vida

 Pensando na Vida – 02

Agora, dos três para os quatro anos de idade as imagens fortes eram de um sobrado em uma rua sem calçamento. Da janela do quarto de cima, nos fundos, eu podia ver aviões de duas azas voando e fazendo manobras. Era o Campo de Marte. Lembro-me perfeitamente da vizinha, uma moça de nome Zuta que fazia pão, e o cheiro do pão assado era uma delícia. A Zuta me agradava muito e sempre me dava um pãozinho, pois eu subia em alguma coisa e espiava por cima do muro esperando a hora do pão quente.

Havia outras crianças para brincar. No natal, meu pai me deu um aviãozinho que tinha corda e voava em círculos pendurado por uma linha que estava presa na madeira da escada que permitia acessar o andar superior. Com certeza meu pai gostava de brincar com o avião e eu ficava só olhando o “nosso Campo de Marte”. Minha mãe fez sorvete de creme com calda de ameixas em um equipamento caseiro, e para gelar, punha sal e gelo em volta do recipiente onde estava o creme.

Em uma manhã de sol claro um avião vermelho sobrevoou o campo de Marte. A curiosidade me levou e ao tio Oswaldo, ir na janela do sobrado para ver a novidade. Ainda hoje tenho a vista boa e naquela época eu via quando o piloto jogava com a mão um pequeno objeto escuro e comprido em cima do campo. Depois uma explosão! Era 1932 e o “brigadeiro” Gomes jogava granada no Aero-Club do Campo de Marte, e recebia alguns tiros de fuzil.

No dia seguinte havia nuvens escuras e baixas. Meu tio Oswaldo, dezessete para dezoito anos tinha uma espingarda pica-pau (?) na mão e um facão na cintura. Uma piada! Depois amarrou o facão na espingarda com um fio de luz a guisa de baioneta. Minha mãe, apavorada com o ruído do avião vermelho do brigadeiro e das poucas bombas, juntou umas roupas, envolveu o bebê em um cobertor, e eu arrastei o outro cobertor e descemos as escadas para pegar um táxi. Era um Chevrolet tipo Ramona, capota de couro, sem janelas laterais, que na estrada daria no máximo 40 km / hora. Na Avenida Tiradentes a movimentação era grande, pessoas apressadas de paletó gravata e chapéu iam de um lado para outro. Soldados de farda amarela e quepe formavam ao lado do Quartel.

Chegamos à casa da Vó Emília e do Vô Antonio na Rua Aureliano Coutinho 25, entre Santa Cecília e Higienópolis. Acomodamos-nos bem, pois havia 4 dormitórios grandes na frente, com porta para o Alpendre e Jardim. A casa era alugada de um senhor Mourão que, muito mais tarde (1952), soube que era pai do Celso Mourão, meu colega de Faculdade de Filosofia, USP.

Meu pai entregou a casa do Campo de Marte, e depois fomos morar na Vila Pompéia, longe do Campo de Marte, a Rua Barão do Bananal 695, onde havia terreno baldio na frente e do lado direito por pelo menos 50 metros. Em frente, um pouco mais para baixo havia uma residência enorme de um fazendeiro, um “barão do café” que tinha duas filhas, uma com dez e outra com doze anos. Estudavam em um colégio de freiras e, isoladas, sem companhia, a mãe pediu para que eu fosse brincar com elas. Faziam-me de gato e sapato, pois era um miúdo de quatro anos de idade. O vizinho pegado à mansão, mais para baixo era o dono de uma mercearia e chamava-se Bicenor. Vizinho do Bicenor morava um operário do Matarazzo que construiu uma pequena casa em 1928 e que hoje é minha propriedade.

Eram os quatro anos de idade, e ir à igreja e à escola dominical eram o marcador do final de semana. Era a oportunidade do pai se apresentar com o violino e a mãe vestir algo diferente e usar um chapéu, um colar e o bicho com cara de raposa mordendo a cauda enrolado no pescoço. Nessa época em que morávamos na Rua Barão do Bananal, ainda sem calçamento, essa casa térrea, com um pequeno quintal onde havia um pé de maxuxo, flores amarelas, e abelhas aos montes, havia uma gata que deu a luz, e o gatão comeu todos os gatinhos. Esse era o meu Universo em 1933. A. Dias (segue).

Postado em : Pensando na Vida

1 Comentário


    • Eliane de Mendonça Vieira
    • outubro 3, 2015
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    Me lembro bem desta rua - Barão do Bananal

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